quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Infância

Cresci numa casa onde nada era permitido, não podia falar alto pois meu pai estava assistindo o jornal, não podia fazer barulho enquanto brincava, e quando isso acontecia ele sempre gritava: Pare com isso, eu já pago escolinha, e pago caro, para você gritar e encher o saco lá!
Banhos tinham que ser rápidos, pois ia gastar muita água, se saísse de um cômodo e a luz ficasse acesa, era um tapa. Cresci vendo agressões físicas e verbais direcionados para a pessoa que mais amo, minha mãe, e aos 11 anos eu fui trabalhar, trabalhava do 12h30 até as 18h, 19h por 80 reais por mês, mas era a loja do meu meio-irmão, eu tinha que ajudar, ou seria taxado de preguiçoso e de ser uma pessoa ruim.
Uma vez, devia ter uns 9 ou 10 anos, após sair de uma festa de casamento no Lar dos Meninos aqui da cidade, eu estava eufórico, pois tinha um parquinho lá e eu me acabei de brincar, na volta meu pai perguntou: E ai, gostou da festa? e eu disse: Adorei, me diverti muito, muito, queria morar nesse lugar!
Ele parou o carro e me deu um surra no meio da rua, disse que eu era um ingrato, que eu deveria dar graças a deus por ter um lar.
Outra vez, quando uma outra meia-irmã morava na mesma casa que a gente, ela e seu filho, eu fui comunicar a ele que a piscina de plástico do neto dele estava vazando água, que deveria estar furada, levei outra surra, ele dizia que era eu quem tinha furado. Sem contar outras surras porque ele perdia 10, 20 reais e dizia que era eu quem tinha pego. Mas como a dor já tinha se tornado um meio de fazer eu me sentir vivo, eu não tinha medo de responder, eu não tinha mais medo de xingar, eu tinha marcas de cinta, de chinelo, de dedos, no corpo inteiro, mas eu não calava minha boca.
Na adolescência eu não podia colocar uma musica mais alta, não podia dormir com o ventilador ligado a noite toda, as vezes nem dormia de tanto calor, mas ia gastar muita energia.
Me lembro que aos 8 anos eu chorava e pedia pra morrer, eu queria morrer, eu queria viver num céu igual da novela A Viagem, era tudo tão perfeito lá. Aos 13 anos eu pensei pela primeira vez em me matar, fazia de tudo para ser atropelado; Devido a uma infância tão reprimida, ela durou muito mais tempo que o normal, com 15 anos eu queria ser um Chiquitito, dei um beijo somente aos 17 e a primeira vez que fui numa festa foi aos 18.
Quando descobri que piercings e tatuagens, existiam, mergulhei de cabeça, quer maneira melhor de sentir dor? E a tatuagem tem outra função também, pessoas limítrofes se sentem como se não tivessem pele, então a tatuagem passa a ser a nova pele, a armadura que o ego não dá conta de ser.
Embora eu tenha melhorado em diversos aspectos, vários resquícios dessa infância/adolescência estão e mim, meus banhos duram, estourando, 10 minutos, me policio ao máximo para não ter uma música alta, ou deixar uma luz ligada sem necessidade, embora meu pai tenha mudado, ele não é mais esse "monstro" que me criou, eu sinto que a qualquer momento, qualquer passo errado que eu der, ele vai vir e me dar outra surra, mas como eu disse as surras faziam eu me sentir vivo, então você pode se perguntar, porque o medo, se você gosta? Simplesmente porque eu me tornei uma pessoa descontrolada, sem limites e tenho medo de se um dia ele avançar sobre mim, eu revidar e acabar matando-o.

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